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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Cristão e a Pós-Modernidade

No boletim dominical do dia 30 de maio do ano em curso, o pastor Augustus Nicodemus Lopes, cuja passagem por nossa igreja foi sobremaneira abençoadora, discorreu sobre alguns traços que norteiam a chamada Pós-Modernidade, apontando, em seguida, as implicações, em geral negativas, que ela traz para a fé cristã, notadamente quando o foco recai sobre a leitura da Bíblia sagrada, a natureza essencial das Escrituras e a sua relevância no mundo contemporâneo. Conquanto complexa nos múltiplos contornos que exibe, podemos, simplificadamente, afirmar que a Pós-Modernidade é um compósito conceitual e atmosfera cultural que rejeita as noções de centralidade, de fundamentalidade e universalidade.

No ideário da Pós-Modernidade, não há centralidade no sentido de que se põe em cheque a ideia de que haja um centro em torno do qual girariam realidades subordinadas. O que há são estilhaços de sentido, fluidez de conceitos, multiplicidade de percepções, devendo-se, em nome do intocável princípio da pluralidade ideológica, conferir a todas elas o mesmo grau de veracidade. Na Idade Média, mesmo que de maneira nominal, acreditava-se que Deus era o centro de todas as coisas. Na Renascença, o homem ascende ao primeiro plano e passa a ser, na emblemática e sentenciosa assertiva do sofista Protágoras, o ponto de partida e de chegada de todas as cogitações intelectuais: “medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”.

No Iluminismo, a razão, a técnica, o progresso e a ciência dão-se as mãos e se autoconstituem o centro de todas as coisas. A Pós-Modernidade, ao proclamar a morte das metanarrativas, afirma não haver mais centro algum. Não há, também, fundamentalidade, no sentido de que o conceito de verdade absoluta é questionado, emergindo, em seu lugar, o idolátrico culto de relativismo em todos os campos em que se manifesta o ser/fazer humano: estético, filosófico, religioso, científico. Não há, por fim, universalidade no sentido de que, por exemplo, o que é certo para o ocidental não tem de ser necessariamente certo para o oriental. Cada cultura cria os seus valores e vive de conformidade com eles. Radicalizando a matéria: cada ser humano, em sua irredutível singularidade, é uma cultura à parte, que se deve reger única e exclusivamente por sua soberana subjetividade.

Toda essa realidade, vê-se claramente, rivaliza com a cosmovisão cristã, alicerçada, irreservadamente, na Revelação que Deus fez de Si mesmo nas Escrituras Sagradas. As Escrituras Sagradas são a verdade absoluta de Deus para nós; não a verdade exaustiva, mas suficiente para nos fazer conhecer o Deus único vivo e verdadeiro; para nos fazer conhecer a nós mesmos em nossa miséria e pecaminosidade; e, de igual modo, para nos fazer conhecer a gloriosa salvação que Deus nos concedeu em Cristo Jesus, o Seu amado Filho. Diante, pois, do relativismo triunfante postulado pela mundividência Pós-Moderna e, de igual modo, do toleracionismo autoritário que ela nos quer impor, ao exigir que aceitemos todas as concepções religiosas como se fossem igualmente verdadeiras e plenamente legítimas, como devemos proceder? Devemos ser politicamente corretos e fazer concessões à nossa fé, a fim de não desagradarmos o mundo ou, ao contrário, firmar-nos cada vez mais em Deus e continuar a proclamar a verdade absoluta do evangelho da cruz e a centralidade indisputável de Jesus Cristo, o único que pode salvar o pecador e franquear o pleno acesso á presença de Deus? A resposta brota, cristalina, da Palavra de Deus.

Um texto das Escrituras Sagradas que ilustra, exemplarmente, a postura a ser assumida pela igreja do Senhor Jesus Cristo em um mundo pluralista, relativista, inclusivista e terrivelmente pragmático é o que encontramos no capítulo dezessete do Livro de Atos dos Apóstolos; e que relata a experiência missionária do apóstolo Paulo no coração da intelectualidade do seu tempo: a cidade de Atenas. O texto sagrado diz que Paulo indignou-se sobremaneira, ao perceber a idolatria reinante no Areópago de Atenas. Indignação não como expressão de raiva contra a forma como as pessoas ali manifestavam a sua espiritualidade, mas sim como vestígio de um coração condoído e cheio de compaixão diante da cegueira espiritual dos que, por causa do completo desconhecimento do Deus verdadeiro e da depravação moral de corações irregenerados, cultuavam ídolos vãos, meras fantasias da caída imaginação humana.


Paulo foi tolerante em face da crença dos cidadãos atenientes, tanto que os tratou respeitosamente, com eles estabelecendo uma interlocução séria e consequente; mas não foi toleracionista, a ponto de considerar verdadeiro o que era falso em sua essência. De forma amorosa e firme, o santo apóstolo de Deus confrontou as bases filosóficas epicuristas e estóicas que norteavam as crenças vigentes naquele local e, em seguida, apresentou-lhes a realidade do Deus verdadeiro, que é criador de todas, sustentador do universo, Senhor da história, redentor dos pecadores perdidos; o Deus que, por fim, haverá de promover, na consumação de todas as coisas, um acerto de contas com aqueles que, confrontados com a pregação do evangelho, não se arrependeram dos seus pecados; antes preferiram dar livre curso a uma vida de consciente impiedade.

Paulo incluiu os atenientes como destinatários privilegiados da mensagem de Deus que proclamava, mas não era, nunca foi, um inclusivista, no sentido de considerar válidas todas as profissões de fé. Paulo era, sim, alguém que, pela Palavra de Deus, sabia que somente em Cristo Jesus há salvação para o pecador. Fora de Cristo o que aguarda o homem é dor, sofrimento e morte eterna. Paulo não se mostrou um relativista diante da multiplicidade de altares com os quais se deparou; antes, ratificou os absolutos morais e espirituais do Deus que é a fonte indisputável e insubstituível de toda a verdade.


Paulo não se mostrou um adepto do pragmatismo, filosofia que põe a ênfase das suas considerações e conceitos não na ontologia das coisas; no que é certo ou errado; mas sim na funcionalidade delas para os sujeitos que delas se apropriam. Em suma: o pragmático diz que certo é aquilo que é certo para mim; que funciona para mim. Irmão gêmeo do individualismo mais exacerbado, o pragmatismo rejeita a noção de verdades objetivas e absolutas; rejeita, portanto, a Deus.


Paulo, enfim, mostrou amor profundo para com os frequentadores da fervilhante praça de Atenas, tanto que apontou o erro em que eles estavam mergulhados e os exortou ao arrependimento e à fé salvadora na pessoa de Jesus Cristo. O verdadeiro amor não é o que cega diante do pecado, mas sim o que o confronta, o denuncia e, ato contínuo, sinaliza para o único remédio capaz de debelá-lo completamente: Jesus Cristo, através do sangue purificador vertido na cruz do calvário. Que Deus nos dê a graça de continuarmos, como cristãos reformados, com a consciência inteiramente cativa à sua Palavra, a fim de nos mirarmos no exemplo protagonizado pelo apóstolo Paulo diante dos corifeus da intelectualidade grega e, desse modo, sabermos como agir no mundo da Pós-Modernidade: com tolerância, amor, paixão pelas almas perdidas e, sobretudo, fidelidade às Escrituras Sagradas. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

Por José Mário da Silva / Presbitero da Igreja Presbiteriana de Campina Grande - PB


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