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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cai a máscara

À nossa volta, vai se fechando o cerco sobre a liberdade. Na Venezuela isso já é uma realidade. Com exceção do Chile, essa triste América Latina vai amordaçando as vozes que, certo ou errado, formam o contraditório que permite à população formar juízo sobre seus governantes.
Governantes em todos os tempos experimentaram a tentação de suprimir a liberdade de expressão, sempre que essa buscasse estabelecer a controvérsia, ainda que por caminhos tortos, e iluminar os cidadãos com o conhecimento.
A leitura da correspondência de Thomas Jefferson é ilustrativa da sua preocupação com o assunto, que o acompanhou por grande parte de sua vida pública. "Nossa liberdade não pode ser assegurada senão pela liberdade de imprensa, nem pode essa liberdade ser limitada sem que corramos o risco de perder toda a liberdade", escreveu ele a John Jay, em 1786.
Oito anos depois, escrevendo desta vez a John Tyler, maravilhava-se com a possibilidade de o povo se governar pela razão e pela verdade. Para isso, dizia, era necessário que todos os caminhos que conduzissem à razão e à verdade estivessem livres para o povo. "O caminho mais eficaz até agora encontrado para isso é a liberdade de imprensa", escreveu. E completou dizendo que esse seria o primeiro caminho a ser fechado por aqueles que temem ser investigados por seus atos.
O passar do tempo não extinguiu suas preocupações com os que ameaçavam a liberdade de imprensa. Ainda em 1823 essa ameaça pairava sobre a democracia americana, como atesta a carta que enviou a John Adams, em 1823, onde dizia que a luz que caiu sobre a humanidade pela arte da imprensa mudou a condição do mundo. E afirmava, com a certeza da fé, que enquanto ela fosse preservada essa condição não reverteria à tirania, como o raiar do sol não abandona o seu curso.
Sábias palavras! A liberdade de imprensa foi mantida pelo fervor religioso à liberdade por parte do povo americano. Quando, em 1831, lá chegou Alexis de Tocqueville, a encontrou fulgurante, a despeito do que considerava seus excessos.
Em sua obra magistral, A democracia na América, ele registrou: "Quanto mais observo os efeitos de uma imprensa livre, mais convencido fico de que, no mundo moderno, a liberdade de imprensa é o principal elemento da liberdade em geral".
Nem todos pensam assim. Especialmente os governantes que temem ser investigados por seus atos, não apreciam as vantagens, para a população, de uma imprensa livre.
À nossa volta, vai se fechando o cerco sobre a liberdade. Na Venezuela isso já é uma realidade. Com exceção do Chile, essa triste América Latina vai amordaçando as vozes que, certo ou errado, formam o contraditório que permite à população formar juízo sobre seus governantes.
Fosse Jefferson brasileiro e estivesse entre nós, certamente estaria expressando as mesmas preocupações que expressou com relação à liberdade em seu próprio país.
Estamos assistindo a mais um capítulo da luta pela liberdade de opinião na Argentina. Lá, a governante de plantão ameaça fazer com que o Estado se apodere da principal fábrica argentina de papel de imprensa, a Papel Prensa, em que é sócio minoritário, em parceria com os jornais La Nación e Clarín.
Alega a primeira mandatária que a compra da Papel Prensa pelos jornais deu-se em circunstâncias irregulares. Segundo ela, membros da família Graiver, anteriormente proprietária, teriam sido sequestrados e torturados pelo regime militar argentino para que os jornais passassem a controlar a fábrica de papel. A venda ocorreu em 1976, quando se iniciava na Argentina o regime militar. As provas da irregularidade seriam cabais e foram apresentadas em entrevista coletiva à imprensa na Casa Rosada.
Não deixa de ser peculiar que o governo queira agora exumar a regularidade ou não de um negócio ocorrido em 1976. Não deixa de ser peculiar também que o Estado argentino tenha sido sócio, por tanto tempo, de um negócio adquirido, segundo a presidente, de forma irregular.
Ontem, contudo, a farsa começou a ruir. Vincular a venda da Papel Prensa à tortura é falso, conforme mostrou em dura carta o ex-embaixador da Argentina na Unesco, Gustavo Caraballo. Ele havia sido detido em 1977 e torturado no centro clandestino Puesto Vasco, junto com Lídia Papaleo de Graiver. A data é significativa, já que a venda da empresa ocorreu em 1976. Os Graiver foram detidos e torturados em 1977, quando a transferência do controle já havia se dado.
Nesta quinta-feira, o jornal Clarín publicou documentos depositados em juízo por Isidoro Graiver e Maria Sol Graiver, que asseguram que não houve qualquer irregularidade na compra  da Papel Prensa e que nenhum dos membros da família sofreu qualquer pressão para vender a empresa.

Cai por terra assim a mentira. Caiu a máscara. O governo que mente com os números da inflação é o mesmo governo que agora mente a respeito da compra da fábrica de papel. O que pretende é sufocar os jornais, monopolizando o fabrico de papel e negando o acesso dos jornais à sua matéria prima. Com razão preocupavam-se Jefferson e Tocqueville com a manutenção da liberdade de expressão. Quando essa se vai, junto com ela vão todas as demais.

Publicado no Diário do Comércio /Roberto Fendt é economista.

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