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terça-feira, 6 de julho de 2010

Parecido com o Melhor de Todos

Por: Pr. Clodoaldo Machado

Um ensino claro na Bíblia é que os crentes em Cristo Jesus devem ser como Ele. Ser parecido com Jesus é uma frase que muitos crentes já ouviram, para não dizer que já disseram. Paulo escreveu aos Romanos: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29, ênfase acrescentada). Deus estabeleceu Jesus como o modelo que o agrada, aliás, em duas oportunidades Ele falou que Jesus é o Seu Filho amado em quem tem prazer (Mt 3.17; 17.5). Portanto não é segredo para o crente que Deus tem o propósito de torná-lo semelhante a Jesus.
Se devemos então ser como Jesus devemos compreender como foi a vida dEle, apesar de parecer um tanto óbvio dizer que todo crente deve compreender como foi a vida de Jesus. Parece também ser redundante, já que a maioria dos crentes afirma compreender muito bem como foram os anos de vida de nosso Senhor entre nós. Lembram-se do seu nascimento virginal, de sua tentação, dos milagres que operou, do seu sofrimento na cruz. De forma geral parece que a vida de Jesus está na memória de todo crente, até mesmo de alguns que não confiam nEle. Alguém, porém, disse com sabedoria que é preciso compreender não somente o que a Bíblia diz, mas também o que ela quer dizer quando diz o que diz. Isto é verdade sobre a forma como Jesus viveu, muitos sabem dos fatos acontecidos em sua vida, no entanto ficam aquém dos ensinos ali ministrados.
Olhemos para o relato bíblico sobre as horas que antecederam a crucificação. Mateus 26.36-45, conta-nos que após ter deixado o cenáculo, onde havia comido com os discípulos a última páscoa, Jesus foi ao Getsêmani. Seu propósito era orar. Era por volta da meia noite e nosso Senhor começava a sentir o sofrimento da crucificação e resolveu então falar com o Pai em oração. Neste período, o Filho amado de Deus revelou detalhes de seu relacionamento com o Pai. Nesta revelação podemos compreender uma parte de como foi sua vida neste mundo e dar um passo adiante na compreensão do que significa ser como Jesus.

Profundamente triste

Mateus conta-nos no versículo 37 que Jesus começou a entristecer-se e a angustiar-se. A consciência do que estava para acontecer fez com que Ele sofresse antecipadamente. João escreveu que Jesus sabia todas as coisas que estavam para vir sobre Ele (Jo 18.4). Nada do que estava para acontecer naquelas horas que se seguiriam era surpresa para o nosso Senhor. Ali naquele jardim Ele começou a sofrer e a angustiar-se. Era uma dor emocional profunda a ponto de levar o suor de Jesus a se tornar como gotas de sangue (Lc 22.44). Sob tensão emocional vasos capilares subcutâneos se rompem levando o sangue a se misturar com o suor e a sair pelas glândulas. Seu sofrimento era intenso. Sabendo que estava para receber a ira de Deus por causa de nossos pecados, Jesus sofreu e angustiou-se. No versículo 38 Jesus verbaliza a Pedro, João e Tiago o quanto estava sofrendo: “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte.” Nosso modelo neste mundo passou por profundo sofrimento.
O que isso significa para nós? Ser um crente em Jesus significa ter sofrimento neste mundo, significa ter momentos de angústia profunda. Se somos chamados a ser como Ele, e se Ele passou por isso, significa que também podemos passar. Deus pode ter em seus planos momentos de sofrimento e angústia para nós. Jesus, por exemplo, falou que mostraria a Paulo o quanto lhe importava sofrer pelo seu nome (At 9.16). O próprio Paulo, junto com Barnabé, ensinava os crentes que através de muitas tribulações é necessário entrar no reino dos céus (At 14.22). Pedro escreveu que fomos chamados para isto, ele afirmou que Cristo sofreu em nosso lugar, deixando-nos o exemplo para seguirmos seus passos (1Pe 2.21). É certamente claro que nosso sofrimento nunca se assemelhará ao de Jesus. Ele não tinha pecados e passava por um sofrimento injusto. Nosso sofrimento é de alguma forma justo, pois somos pecadores. Se Jesus sofreu e angustiou-se é possível que também passemos por isso neste mundo.

Submissão total

Mateus também registra um pedido que Jesus fez ao Pai. O versículo 39 relata que Jesus adiantou-se um pouco, e prostrado sobre o rosto orou: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres.” Temos mais um exemplo precioso daquele que é nosso modelo. Ele foi submisso ao Pai. Em uma atitude de total dependência e submissão Ele pediu ao Pai que, se possível, fosse afastado dele o cálice que estava para beber. O cálice não era a dor física que Ele estava para sentir, muitos passaram e ainda passam pela dor da crucificação. Isso não era o pior para Ele. O cálice também não era o temor dos homens que estavam para o prender. Ainda que fossem maus e estivessem prestes a demonstrar toda a ira que sentiam sobre Ele, Ele não os temia. Jesus havia dito aos seus discípulos que não temessem aqueles que matam o corpo e nada mais podem fazer (Lc 12.4). Nesta hora Ele não temeria aqueles que havia ensinado seus discípulos a não temer. O que Jesus temia naquele momento não era a dor física, também não era o que as pessoas poderiam fazer com Ele. Ele temia a ira de Deus pela qual teria que passar. O cálice era muito pesado e Ele pediu para não beber. Não pode haver coisa pior do que estar separado da comunhão com Pai, e era isso que estava para acontecer. Jesus receberia a ira de Deus na cruz e Ele pediu que isso não acontecesse caso fosse possível.
Nosso Senhor, entretanto agiu em perfeita submissão. Ele não fez exigências, não determinou a Deus o que deveria acontecer, Ele não repreendeu qualquer demônio naquela hora. Jesus simplesmente pediu ao Pai e afirmou: “Todavia não seja como eu quero, e, sim, como tu queres” (v.39). Que exemplo de submissão! Ele sabia que estava para acontecer algo terrível, algo que estava lhe causando profunda tristeza, no entanto Ele disse que não importava sua vontade, mas a do Pai. A maior dor que qualquer ser humano possa sentir não se aproxima à que Jesus sentia naquela noite no Getsêmani, e Ele aceitaria passar por ela se fosse a vontade do Pai.

Ser como Jesus é também ter que se submeter integralmente a Deus. É ter que confiar que Ele fará sempre o que for melhor para seus servos, incluindo momentos de sofrimento. Jesus naquela hora estava cumprindo aquilo que havia dito aos seus discípulos dias antes quando afirmou que não tinha vindo para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28). Paulo disse que Ele se esvaziou assumindo a forma de servo (Fl 2.7). A palavra usada para servo no grego significa literalmente escravo. Escravos não têm vontade própria. Escravos são em tudo obedientes aos seus senhores. Escravos vivem com um único propósito que é fazer a vontade de seu senhor. Escravos eram inclusive punidos até mesmo com a morte se ousassem desobedecer a seus senhores. Foi isso que Jesus se tornou um servo, em tudo obediente ao Pai.

Somos chamados a ser servos de Deus. Somos seus escravos, não temos vontade própria. Ele decide tudo sobre nossas vidas. Seguir o exemplo de Jesus significa submeter-se totalmente e a Deus, sabendo o que isto significa. A vontade de Deus para nossa vida pode incluir coisas que não gostamos. Talvez situações pelas quais não imaginemos ter que passar possam ser a vontade de Deus para nós. Pedro escreveu que Deus pode desejar que soframos (1Pe 3.17). Quando pensam que devem se submeter a Deus, muitos crentes não consideram que Jesus foi submisso ao Pai até a morte e morte de cruz. Ser como Jesus é estar disposto a passar pelo que Ele passou. O apóstolo Paulo entendeu isso perfeitamente. Quando escreveu aos filipenses ele disse que havia considerado todas as coisas como refugo e desta forma ter a comunhão dos sofrimentos de Cristo, conformando-se com Ele na sua morte (Fl.3.10). Ser como Jesus não inclui somente a glória nos céus, significa que o caminho até lá é estreito e difícil de andar por ele.

Resposta negativa

Mateus fala que Jesus orou três vezes e em todas ele repetiu as mesmas palavras (v. 44). Aqui temos algo maravilhoso a respeito de nosso Senhor. Ele recebeu uma resposta negativa. O Filho Amado de Deus, aquele em quem o Pai tinha prazer recebeu “não” como resposta. O Filho que ouviu o Pai certa vez dizer-lhe “pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão” (Sl 2.8), agora ouviu o Pai dizer-lhe “não” a um pedido que lhe havia feito. Jesus terminou a oração e voltou a encontrar seus discípulos e numa demonstração de conformidade com a resposta recebida disse: “Eis que é chegada a hora, e o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos de pecadores” (v. 45). Deus havia dito a Ele que não atenderia seu pedido e Ele não se queixaria disso.

Ser como Jesus é também estar preparado para ouvir Deus dizer-nos “não”. Creio que muitos dos que são chamados de cristãos não conhecem a Deus de fato, pois o vêem como alguém que lhes fará tudo o que quiserem e na hora que pedirem. Portam-se como crianças mimadas que exigem resposta rápida e positiva. É lamentável, mas muitos dos que chamam a Deus de Senhor não entrarão no reino dos céus, pois não O conhecem verdadeiramente. Aquilo que chamam de Senhor não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia nos chama de seus servos e muitas vezes nos diz “não” aos pedidos que lhe fazemos. Ele sabe o que é melhor para nós e por isso não nos atende em tudo o que lhe pedimos. O apóstolo Paulo experimentou isso. Ele estava sofrendo numa situação a que ele chamou de espinho na carne. Era algo ruim, doloroso, difícil de passar. Paulo conta-nos que três vezes pediu ao Senhor que o livrasse daquele problema, mas a reposta para ele foi negativa. O Senhor disse a Ele que a graça lhe bastava (2Co 12.7-9). Paulo não se frustrou com Deus, não entrou em depressão, não chorou pelos cantos da igreja procurando chamar a atenção das pessoas para o seu problema, pelo contrário o apóstolo, que afirmou ser um imitador de Cristo, disse: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.9-10). Ser como Jesus é aceitar “não” como resposta.

Que diferença esta verdade de tantas falácias que são ditas em nossos dias sobre Deus. Deus é apontado como alguém que está a disposição para fazer tudo o que pecadores quiserem, basta ordenar que Ele faça, basta que determinem e Ele os atenderá. Se o melhor dos filhos, aquele que nunca desobedeceu, nunca pecou, foi tentado em todas as coisas e permaneceu irrepreensível, ouviu o Pai dizer-lhe “não”, por que nós pecadores não compreendemos quando Ele nos diz “não” também?

Não gostamos de ouvir “não”, parece ser uma palavra que dói nos ouvidos. É uma palavra que desde quando éramos crianças irrita-nos. Devemos lembrar, entretanto que a verdade desta palavra é muito importante no relacionamento com Deus. Mesmo quando não havia pecado na humanidade Deus a usou. Nossos pais Adão e Eva estavam na perfeição do jardim e Deus lhes disse: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). A base do relacionamento deles com Deus estava em compreender o significado daquele “não”. Quando entregou os dez mandamentos, em oito deles Deus usou a Palavra “não”. Será que isso não nos comunica nada? Nosso Deus diz-nos com freqüência a palavra que talvez menos gostamos de ouvir: “não”! Ser como Jesus é saber desta realidade e seguir a Deus como Ele é de fato e não como queremos que seja.

Jesus falou sério quando disse o que significava segui-lo. Andar após Ele não é como um passeio no bosque, não é como caminhar a beira-mar ouvindo o barulho das ondas e observando uma bela paisagem. Ele disse que o caminho é apertado e poucos se acertam com ele. Ele disse que segui-lo é ser contrariado todos os dias. Ser como Ele é saber que haverá sofrimento e angústia; ser como Ele é estar disposto a ser submisso a Deus em tudo; ser como Ele é ter a disposição de ouvir uma das mais dolorosas palavras, “não”.

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